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[PT/BR] O futuro da educação através do Metaverso

Na 20ª edição do BobbaWars, entrevistamos a Professora de Multimídias Beatriz e habbo BNDOMas antes, vale destacar um pouco sobre a convidada desta edição!

Beatriz ou BNDO tem 28 anos e joga Habbo entre idas e vindas desde dezembro de 2005. Já passou por várias experiências, boas ou ruins, no hotel PT/BR, mas poucos sabem o que ela realmente faz fora do jogo. É bacharel em Jornalismo, licenciada em Artes Visuais e pós-graduada em Mídias na Educação, atualmente trabalhando como professora de Artes, de Arte e Animação, e de Multimídias, matéria que criou para o Ens. Fundamental II em parceria com a escola na qual trabalha.

Segundo ela, Multimídias é uma disciplina que busca educar o olhar dos alunos e promover discussões acerca do que faz parte de sua cultura e é relacionado às mídias da atualidade. É uma forma destes jovens enxergarem o potencial criativo destas ferramentas e as utilizar de uma forma saudável, também cientes de seus malefícios e de como evitá-los. Eles aprendem essas e outras questões através de discussões, descobertas, atividades práticas e projetos integrados com outras disciplinas. É uma matéria necessária no espaço escolar!

A seguir, você verá na integra a entrevista que realizamos através do Habbo Hotel no dia 18/12/2021, às 17h BR/20h PT. Esperamos que você goste! Deixe o seu comentário, mande a sua ideia e compartilhe no Twitter marcando @BobbaWars.

Entrevista

1- O que é Metaverso e quais são suas propostas e conceitos?

R: Dentro dos meus estudos, vejo o Metaverso como uma projeção de eventos reais em um cenário virtual, com interação social e práticas do nosso cotidiano inseridas naquele ambiente. Ele chegou como uma nova face das mídias, tendo muito mais interatividade, dinamismo e fluidez nas relações sociais. E isto tudo através de avatares, um conceito já visto nos games, mas que nesse caso,  podem se expressar muito mais, ter mais da identidade da pessoa e até dos trejeitos, no caso de experiências com realidade virtual, que deve ser o novo passo do Metaverso.

2- Como você definiria a transformação da metodologia da educação e de ensino nos últimos anos? Quais são seus pontos positivos e negativos?

R: Bom, essa questão é um pouco ampla, mas vou tentar resumir algumas coisinhas. Primeiro que tudo que é relacionado à educação SEMPRE vai mudar quando há o surgimento de novas tecnologias bastante inovadoras, desde os primeiros espaços de ensino até os modelos que conhecemos hoje em dia de escola. E isso ocorre porque o cérebro do ser humano vai evoluindo, se adaptando a novas realidades, e consegue assim absorver conhecimentos de novas formas.

Atualmente, as pessoas aprendem mais ao interligar ciências, áreas do conhecimento distintas, e as relacionar com fatos de nosso cotidiano. O aluno se tornou protagonista e o professor, um mediador importante que está ali também para somar no processo de ensino dessa criança, adolescente ou adulto. É algo que eu acredito e, como professora, coloco em prática diariamente. Aliás, a escola que trabalho também segue essa filosofia, o que é muito benéfico mesmo.

Porém, infelizmente, muitos professores, coordenadores, diretores e/ou instituições de ensino acabam não levando em consideração isso. Por exemplo, já vi muita professora ensinando por anos a mesma coisa para turmas diferentes sem mudar uma vírgula; escolas em que decorar o maior número de informações possíveis para passar no ENEM é mais importante; entre outros casos.

Muitos desses pontos negativos são motivados pelo medo do novo, do “desconhecido”. Um ator que me aprofundei bastante em meu TCC, o José Libâneo, já dizia que esse temor dos professores vem deles sentirem que perderão sua função, serão substituídos. O tal medo das máquinas pegarem seus lugares da mesma forma que ocorreu com a indústria. Nós sabemos bem que isso não vai acontecer, porém resta torcer para que esses profissionais, instituições e até mesmo órgãos públicos despertem e promovam evolução, não retrocesso.

3- Como a educação se aplica e se aplicará no Metaverso na sua opinião?

R: Vejo o Metaverso na educação como uma ferramenta que proporciona um espaço além da sala de aula, que foge das barreiras de uma série de carteiras enfileiradas. Que pode inclusive nos levar a lugares que talvez financeiramente não seja possível. Vou pegar um exemplo mais próximo da minha realidade como professora de Artes: ver uma obra que está exposta em outro país. Isso já existe em alguns sites, mas imagina se pudéssemos nos aproximar mais, ver mais detalhes sem precisar baixar uma imagem? E se pudéssemos criar artes tridimensionais virtualmente com facilidade? Já vejo alguns artistas arriscando produzir e expor em jogos como Minecraft, mas seria muito bacana ter representações mais próximas do que temos na realidade. Outra coisa: e se pudéssemos trazer convidados de outros locais, palestrantes, outros professores? Seria ótimo para congressos em faculdades, intercâmbio de projetos. Nossa, muitas possibilidades…

4- Quais serão os desafios a serem superados para que estas novas formas de ensino sejam aplicadas?

R: Existem dois grandes desafios: a comunidade escolar se abrir ao que é novo; e existir investimentos para isso. Quanto ao primeiro ponto, se existir um esforço coletivo para que isso ocorra de forma gradativa, certamente vai funcionar. E isso tendo a procura por várias formações destinadas aos membros da área pedagógica. De preferência momentos promovidos com quem possa lidar com profissionais desde os mais novos, mais habituados até os que já estão há anos no mercado e não conhecem muito as novas tecnologias.

Mas o que pesa mesmo são os investimentos. Não são todos os espaços escolares que tem uma base financeira boa, principalmente ao falar do ensino público. Se mal tem ar condicionado nas salas, imagina então um “boom” tecnológico desses? Por isso que, inclusive, eu acredito que o Brasil em um âmbito geral ainda vai precisar caminhar bastante para chegar a essa nova forma de ensinar e de aprender de forma igualitária. Infelizmente, se os governantes não se moverem, a educação particular vai passar e muito a pública nessa questão toda.

5- Afinal, o Habbo é um Metaverso? Por quê?

R: O Habbo é e não é ao mesmo tempo um Metaverso. Se formos pensar no conceito, nós realmente criamos um avatar, personalizamos da forma que gostaríamos, podemos criar nosso espaço, mas nossas expressões são um pouco limitadas aqui a escrita e a poucos comandos, o que não torna isso exatamente uma projeção da realidade. Sem falar que muitos utilizam este jogo para criar uma nova vida, e não jogar a sua para dentro de um ambiente virtual.

6- Como você enxerga a educação através de universos como o Habbo Hotel? Educar através deste jogo, é realmente possível e acessível?

R: Acho que é viável existirem espaços e eventos educativos dentro de jogos como o Habbo, o Roblox, entre outros, todavia eles são raros em comparação com tudo que é ofertado. Dando exemplos aqui do Habbo mesmo: o Infobus e outros jogos promovidos pelos Embaixadores; uma ou outra campanha que tenha telefrase; algumas palestras dadas por polícias com convidados especialistas; o próprio BobbaWars, lógico!

Mas são poucas iniciativas que mediam esse conhecimento e tornam os jogadores protagonistas disso. A maioria despeja informações e informações, ou até mesmo exigem memorização e pesquisas rasas para funcionarem. Será que alguém consegue absorver esses novos conhecimentos de formas assim? Acho difícil.

E falando ainda do Habbo, há outros dois problemas: a questão financeira, já que muito do jogo é pago; e a segurança que o jogo passa, que é o principal. Do que adianta eu querer trazer um projeto educativo aqui pra dentro se existe uma comunidade de maioria tóxica por trás que mal segue o que é discutido aqui e em outros espaços? E que ainda não foram punidos devidamente? Só os esforços dos Embaixadores e Ajudantes não são o suficiente. Isso tem de partir da própria Sulake e da empresa que a comprou. Se já distribuem por aí press kit falando sobre o Habbo poder ser um espaço que pode ser ocupado por instituições e/ou docentes, então que preparem o jogo para isso de uma forma bacana.

7- Quais os desafios e os pontos essenciais que devem ser observados para acessibilização à educação através do Metaverso para pessoas com PCD?

R: Essa pergunta é super importante. Trabalho em uma escola inclusiva tendo contato com muitas crianças e adolescentes PCD (pessoa com deficiência), principalmente relacionadas com questões cognitivas, como TEA (transtorno do espectro autista)TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade). E vejo como, mesmo com todos os meus esforços possíveis, ainda há muita dificuldade por parte deles em se sentirem pertencentes aos espaços das mídias, de terem vontade de produzir e interagir. É exatamente porque dão pouco destaque a quem cria conteúdo voltado para elas e/ou que também é PCD. De uns tempos para cá começaram a aparecer sob os holofotes, mas são poucos ainda, convenhamos.

Então pensa: você tem suas questões, tem que lidar com elas todos os dias, e ainda tem que se deparar nas redes sociais com pessoas dentro dos padrões de beleza reinando, e muitos fazendo vídeos com PCDs para os colocar como grandes piadas e/ou insultos. Como fica o emocional de alguém perante a isso? Pois é…

Por isto, que qualquer mídia antes de se aventurar em criar seus Metaversos tem de repensar medidas de inclusão. As experiências dessas redes sociais precisam abraçar todos, todos mesmo, e não os excluir. Sendo nas ferramentas tecnológicas utilizadas, em aperfeiçoar algum recurso do aplicado e/ou site, em punir quem fazer cyberbullying com essa galera e/ou promove falas extremamente capacitistas… E isso também deve ser feito por quem produz conteúdo, afinal isso pode trazer a visibilidade a causa necessária e incentivar mais esses grandes nomes da mídia a repensar, a incluir.

8- Como você imagina a educação escolar e universitária daqui a 20 anos através do Metaverso, neste caso também do Habbo Hotel?

R: Eu imagino dois possíveis cenários no caso do Metaverso que vão impactar inclusive a educação. Primeiro cenário: se dermos esse grande passo da inclusão do Metaverso, pulando algumas etapas, pulando essa mudança gradativa que sempre realizamos ao transitar de uma tecnologia impactante para outra, e isso sem discutirmos e buscarmos avanços para os malefícios das multimídias. Nesse caso, vejo que poderemos ter grandes problemas de segurança com nossos dados, e os problemas de hoje em dia nas mídias podem se agravar ainda mais. Seria uma verdadeira bola de neve que só aumentaria e causaria um baita caos à la Black Mirror. Inclusive, vale a pena assistir quem tiver idade, tá?

Agora o segundo cenário: as mídias primeiro freando essas mudanças para discutir mais os malefícios e fazer o possível para impedi-los de prosseguir, sendo através das legislações dos países ou acordos internacionais com essas grandes empresas. Se formos seguir por esse caminho, os impactos da tal bola de neve de problemas seria bem menor e o Metaverso poderia ser aproveitado melhor dentro de suas tantas possibilidades, principalmente na educação. Poderíamos com isso focar em fazer grandes eventos benéficos aos estudantes, levar as turmas para vários cantos do mundo de forma virtual, trazer o ensino das Multimídias também para o Ensino Superior… Aí sim daria certo.

E esses cenários se assemelham muito aos que podemos encontrar no caso do futuro do Habbo. Se não há esforços desde então da Sulake, da Azerion e/ou até mesmo dos próprios jogadores, não vamos conseguir aproveitar esse espaço como uma espécie de Metaverso que pode ser utilizado na educação. Mas se existirem investimentos e dedicação para melhorar tudo aquilo que já pontuei, então poderemos ver mais espaços educativos surgindo por aqui, mesmo que não tão repletos de possibilidades por conta do dindin envolvido para criação.

Muito obrigado e até a próxima edição!